dom. nov 28th, 2021

Nerd Fusão

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Crítica – Duna (com spoilers)

Desde que saiu a notícia que estava sendo produzido um novo filme sobre Duna, a comunidade nerd entrou em polvorosa. A aclamada obra de Frank Herbert, um dos escritores pioneiros do gênero de literatura de ficção científica, Duna serviu de inspiração para muitos dos universos que conhecemos atualmente, como, por exemplo, Star Wars. Mas fica uma dúvida: para quem não leu os livros, será que o filme não está chegando tarde? Será que não teremos a sensação de que Duna estaria bebendo na fonte de Star Wars, e não o contrário? Essa é a primeira questão.

A segunda indagação é: o filme funciona para quem não tem a bagagem dos livros? Ele se basta? Ou precisa ter um “manual”, um dicionário para entender o universo de Duna? Eu não quis ler as obras antes, mas busquei informações a respeito, assisti ao primeiro filme, de 1984, dirigido por David Lynch com aquela psicodelia que lhe é peculiar. Aliás, o protagonista é Kyle MacLachlan, que também era personagem principal de Twin Peaks, obra prima de Lynch (e confesso que fiquei esperando o anão aparecer).

Mas vamos ao filme: ele conta a história de Paul Atreides, filho do Duque Leto Atreides, chefe do Planeta e Lady Jessica, uma bene gesserit (que é uma espécie de bruxa, feiticeira ou algo do gênero, que tem poderes mentais). Paul é um adolescente que desde cedo é treinado e por Duncan Idaho, um guerreiro, guarda, piloto que serve à Casa Atreides, e por Gurney Halleck, que basicamente cuida da segurança da família. Duque Leto é convocado pelo Imperador para assumir o comando do Planeta Arrakis, habitado pelos fremen, um lugar bastante inóspito pela escassez de água e calor escaldante, mas que guarda uma especiaria muito valiosa: o melange, que serve como fonte de vida e combustível. Paul Atreides pressente que se trata de uma cilada, mas mesmo assim viaja com sua família e exército para o planeta Arrakis, e aí tudo começa a dar errado, pois sofrem ataques dos exércitos da Casa Harkonnen, que querem reassumir o controle da extração da especiaria, e destruir a Casa Atreides.

“Duna” transita por diversos temas: política, misticismo, disputa de poder, escassez de recursos, exploração, entre outros. Traz também a clássica jornada do herói, o “chosen one”, e diversos conceitos que já são recorrentes na cultura pop. São duas horas e trinta e cinco minutos, sendo que boa parte do primeiro ato serve para nos apresentar o universo, os conceitos, as premissas. E até acho que nesse ponto a obra é eficiente. Tudo é muito épico: a trilha sonora com assinatura de Hans Zimmer é contundente, os figurinos são impecáveis, e a fotografia é manipulada com maestria para sempre deixar claro para o espectador em qual local a história está se passando no momento. É importante ressaltar que é uma obra bastante contemplativa, com cenas grandiosas, imponentes. Eu costumo dizer que a linha entre o épico e o brega é muito tênue, e Duna quase ultrapassa esse limite. O elenco é simplesmente espetacular, fica até difícil de tecer comentários a respeito de todos os personagens, e até acredito que boa parte deles teve um bom desenvolvimento. A família Atreides é interpretada por Oscar Isaac, Rebecca Ferguson e pelo onipresente Timothée Chalamet; Duncan Idaho é vivido pelo carismático Jason Momoa; Josh Brolin dá vida a Gurney Halleck; na parte dos Harkonnen, temos Dave Bautista e Stellan Skarsgard (que está irreconhecível); entre os habitantes de Arrakis, vemos Javier Bardem e Zendaya, que aparecem bem no final do filme (o que me deixou um tanto decepcionada).

Porém, eu gostaria de ter visto mais a respeito das questões políticas, de poder e de recursos em vez de passar tanto tempo vendo as paisagens, o ambiente. Também me questiono se, caso eu não tivesse pesquisado a respeito da trama com antecedência, eu entenderia alguns pontos, como os poderes da Lady Jessica, ou o que é o melange. Mas acho que o ponto mais sensível de Duna é que é uma história sem fim: ela termina com o início de uma nova jornada, como se fosse um prólogo, tanto que no início da rodagem aparece na tela “Duna – Primeira parte”. Eu gosto de filmes que enriquecem a experiência se buscarmos informações em outras mídias ou obras, mas creio que um filme, uma série tem que sempre se bastar em si mesmo, ser compreensível independentemente da bagagem do espectador, e esse não me parece ser o caso de Duna. Ele é grandioso, épico, imponente, mas não aparenta ser acessível para o público em geral, para aquelas pessoas . É uma obra de “nicho”, destinada aos amantes do livro e aficcionados por ficção científica. Resta saber se esse público será o suficiente para fazer com que a história ganhe uma continuidade nos cinemas. Eu espero que sim.

Nota: 8,0

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