seg. set 28th, 2020

Nerd Fusão

Seu guia de sobrevivência no apocalipse Nerd

RESENHA – A VIDA INVISÍVEL

3 min read

Eu costumo dizer que o cinema brasileiro se divide em praticamente dois tipos de obras: as comédias estilo Zorra Total e os filmes tristes. Dentre as comédias, temos algumas pérolas, como “Eu era antes de você”, que destoa dos demais. Já nos filmes tristes há diversas obras que merecem a nossa atenção, e “A vida invisível” é uma delas.

“A vida invisível” se passa no Rio de Janeiro dos anos 40/50, e nos apresenta duas irmãs: Guta e Eurídice. Guida é a mais maluca, mais liberal: gosta de festas, de andar arrumada, de se divertir; já Eurídice é mais discreta, mais certinha, e tem um sonho: se tornar uma grande pianistas. Elas são filhas de um padeiro português bastante rígido, mas não o suficiente para conter Guida, que em uma noite foge com um marinheiro grego e deixa sua família para trás.

Ao longo da trama, vamos acompanhando a vida das irmãs: Guida retorna para o Rio de Janeiro, grávida e sozinha, e Eurídice casa e segue naquela vidinha medíocre, mas sem esquecer dos seus sonhos. Ambas sentem falta uma da outra, Guida escreve cartas para Eurídice, mas elas nunca conseguem se reencontrar, ou demoram a se ver de novo. “A vida invisível” é melancólico e tenso: tenso, porque ficamos sempre torcendo para que as irmãs se reencontrem; melancólico, pois há sempre um sentimento de vazio no ar, uma saudade do que não se viveu.

As atuações são ótimas e no final temos uma pequena (e importante) participação de Fernanda Montenegro, a maior entidade do cinema brasileiro. A fotografia é bastante cuidadosa, e retrata com louvor a cidade na época. Méritos do diretor Karim Aïnouz, que apesar do nome é brasileiro, natural do Ceará, e tem em seu currículo filmes nacionais conhecidos como “Praia do Futuro” e “Madame Satã”.

“A vida invisível” também trata de solidão, de escolhas e caminhos. Cada uma viveu de acordo com suas escolhas, o que implicou em que seguissem caminhos diferentes e se afastassem. Mais do que isso: é uma obra sobre a solidão e o sentimento de falta, de ausência, tudo retratado de uma forma bonita, delicada porém profunda. Há alguns simbolismos, como o brinco da avó que Guida sempre usa, e que aparece até o final do filme, como uma forma de mostrar que, mesmo longe, ela nunca se desligou de Eurídice.

É impossível sair do cinema sem ser tocado pela história, sem refletirmos sobre a vida, as escolhas e as decisões que tomamos e suas consequências. Também vale lembrar que “A vida invisível” é o pré-indicado ao Oscar pelo Brasil, mesmo em um ano que tivemos o aclamado “Bacurau”. E não é por acaso, pois realmente é uma obra-prime que merece a nossa atenção.

Nota: 9,0

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *